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Inverno

Gatos de rua no inverno: comida, água e um sítio quente

O inverno aqui desce muito abaixo de zero e os gatos da colónia dormem na rua. Isto é o que faço todos os dias: a que horas lhes dou de comer, como impeço a água de congelar, e como montei a casota onde se abrigam. Não é teoria — é a rotina de quem olha pela janela de manhã e os vê à espera.

Os passos
  1. A rotina vale mais do que a quantidade
  2. Três refeições, e a última é a que mais pesa
  3. Cada gato come à sua maneira
  4. A água dá mais trabalho do que a comida
  5. As vitaminas, quando o tempo vira
  6. A casota: comprei o kit e montei
  7. Onde a pôr — e porque é que isso decide tudo
  8. O que não fazer
  1. A rotina vale mais do que a quantidade

    Eles aprendem a hora muito antes de aprenderem a confiar. Por volta das sete ou oito da manhã já estão todos no mesmo sítio à espera que eu chegue. Ninguém lhes ensinou isto: perceberam a rotina sozinhos.

    E não é um pormenor bonito, é metade do trabalho feito. Um gato que sabe a que horas come não passa a manhã a procurar comida — e no inverno cada caloria que ele não gasta é uma caloria que fica para o aquecer.

    Escolhe uma hora e um sítio, e não mudes. Faça chuva, neve ou gelo. De tudo o que está escrito nesta página, é isto o que mais conta.

  2. Três refeições, e a última é a que mais pesa

    De manhã cedo, assim que o sol nasce. Já lá estão à espera.

    A meio da tarde, se os vir pelo jardim da janela. Levo mais comida e aproveito para trocar a água.

    Depois do pôr do sol — e esta é a mais importante das três. A minha experiência diz-me que eles procuram sempre comida quando o sol se põe, e faz sentido: a noite é o que mata, e um gato que se deita com o estômago cheio tem com que se aquecer até de manhã.

    No verão a lógica inverte-se e o que passa a contar é a água. Mas no inverno é assim: nunca os deixes ir para a noite em jejum.

  3. Cada gato come à sua maneira

    Esta é a parte em que ninguém acredita até ver. Habituei uns a comer no chão e outros em pratinhos. E não trocam: se puser no prato a comida de um que come no chão, ele não come. Olha, cheira, e vai-se embora.

    Não é teimosia. Um gato de colónia decide se uma coisa é segura pelo que já conhece, e qualquer mudança é motivo para desconfiar. Mudar a tigela é mudar as regras a meio do jogo.

    Repara em quem come onde, e respeita. Não custa nada e evita comida a apodrecer no chão.

  4. A água dá mais trabalho do que a comida

    No inverno congela e no verão seca. É o meu maior problema nos dois extremos do ano e não há solução perfeita.

    O que faço: ponho a tigela onde apanhe sol. Não impede o gelo numa noite de muitos graus negativos, mas atrasa-o, e durante o dia a água volta a estar líquida.

    O que resolve mesmo é ir lá trocar. Água nova de manhã e outra vez ao fim do dia. Nenhum truque substitui isso.

    Uma tigela funda e larga congela mais devagar do que uma rasa. Plástico grosso ou cerâmica, nunca metal — arrefece depressa de mais e com muito frio chega a colar-se à língua.

    No verão é ao contrário: sombra, e trocar a água ainda mais vezes. Com o calor que faz aqui, a água de um dia para o outro já não presta.

  5. As vitaminas, quando o tempo vira

    No início do inverno misturo um suplemento vitamínico em pó na comida. Uma vez por dia, durante sete dias.

    Não te digo a marca porque não me lembro dela e prefiro não inventar. Qualquer suplemento vitamínico para gatos serve, e numa loja de animais ou no veterinário indicam-te um.

    O cuidado que tenho é pô-lo em todas as porções e não só numa. Numa colónia não escolhes quem come primeiro, e quero que todos tenham a mesma hipótese.

  6. A casota: comprei o kit e montei

    Comprei-a num site de vendas polaco, em madeira e por montar. Não foi cara, e montá-la levou-me uma tarde.

    O que a faz funcionar não é a madeira: é o isolamento das paredes, os dois compartimentos lá dentro e a entrada ser pequena. Escrevi tudo isso num guia à parte, com as fotografias da montagem — não cabia aqui sem roubar o lugar ao resto.

  7. Onde a pôr — e porque é que isso decide tudo

    Longe de pessoas e de carros. Os meus gatos são desconfiados: se a casota estiver num sítio de passagem, não entram. Pode ser a melhor casota do mundo, fica vazia o inverno inteiro.

    Não a ponhas assente no chão. A minha está em cima de três blocos de cimento: o ar passa por baixo e a humidade da terra não sobe para a madeira.

    Vira a entrada ao contrário do vento dominante e, se puderes, encosta-a a um muro ou a uma sebe que corte as rajadas.

    Depois de a pores, esquece-a. Não vás espreitar lá dentro para ver se estão. Se eles sentirem que aquilo é um sítio onde aparece gente, deixa de ser um esconderijo — e um abrigo que não é um esconderijo não serve para nada.

  8. O que não fazer

    Feno, não — palha. Parecem a mesma coisa e não são. O feno é erva seca: absorve a humidade, apodrece e cria bolor. A palha é oca por dentro, não se ensopa da mesma maneira, e eles conseguem enterrar-se nela e fazer um ninho.

    Cobertores e mantas, não. Parece acolhedor, mas um pano absorve a humidade do ar e do pêlo molhado, e numa noite de gelo passas a ter um trapo congelado onde devia estar o calor.

    A casota no chão, não. A humidade do solo sobe pela madeira e já não sai.

    Entrada grande, não. Uma porta do tamanho de um gato chega bem. Portas grandes servem o vento.

    Tigelas de metal, não — nem para a comida nem para a água.

    Comida húmida com temperaturas negativas congela em minutos. Nessas noites vale mais ração seca, que aguenta até de manhã, e a saqueta fica para a primeira refeição do dia.

O material

Nada disto é obrigatório. Uma caixa de esferovite com um buraco e palha lá dentro salva um gato numa noite de gelo, e custa quase nada. Se só puderes escolher uma coisa desta lista, escolhe a palha.

  • Palha para a cama

    É o que segura o calor e é o único item de que não abdico. Se vives perto de campo, compra-a a um agricultor: sai por uma fração do preço e vem em quantidade. Na cidade vende-se em fardos pequenos nas lojas de animais.

    Ver palha
  • Casota isolada de exterior

    A minha veio por montar e com as placas de esferovite incluídas. Se não quiseres montar nada, há modelos prontos. Procura três coisas: entrada pequena, chão que não assente na terra, e telhado que avance sobre as paredes.

    Ver casotas
  • Almofada térmica de micro-ondas

    Aquece-se no micro-ondas e dá calor durante horas, sem fios nem tomada no jardim. Vai debaixo da palha. É o que os abrigos usam e é das poucas coisas desta lista que funciona mesmo com muito frio.

    Ver a almofada
  • Tigela de água com aquecimento

    Resolve o gelo de vez, mas precisa de uma tomada por perto. Se não tens eletricidade no jardim, esquece: trocar a água duas vezes por dia faz o mesmo trabalho, só dá mais voltas.

    Ver tigelas

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E depois?

No primeiro inverno não sabia nada disto. Fui aprendendo com erros, e alguns deles estão na lista do que não fazer. Se tens gatos à tua porta e o frio está a chegar, começa pela hora certa e pela palha. O resto vem com o tempo.

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